Desde os alvores do mundo, a vida do homem tem sido um contínuo transitar entre a ignorância e o saber, regulado pelo desenvolvimento progressivo das funções de seu entendimento, o que o levou a realizar inusitados esforços para liberar-se da primeira e alcançar o segundo, em boa parte concretizados pelas vias técnica e científica, da mesma forma que pela arte. Não obstante, houve zonas de sua mente que permaneceram alheias a esse desenvolvimento evolutivo. Estamos nos referindo às zonas que abarcam: 1º) o conhecimento de si mesmo; 2º) o conhecimento do mundo metafísico ou transcendente; 3º)o conhecimento de Deus. Essas zonas mentais, convertidas por sua inatividade em fronteiras que limitam o entendimento, tor
naram-se para ele cada vez mais infranqueáveis, por sua pretensão de transpô-las dirigindo sua atenção invariavelmente para o externo. Foi assim que reiteradamente tentou ver, estudar e descobrir em seus semelhantes as causas que lhe revelassem sua origem, o porquê de seu aparecimento na terra, sua missão e, finalmente, seu futuro extraterreno, ou seja, a sobrevivência de sua entidade anímica. Não pôde compreender – pois ninguém lhe ofereceu esse grande conhecimento – que tão maravilhoso mistério deve ser surpreendido nas profundezas do próprio ser interno, por ser ali, e não em outra parte, onde o homem alcançará o ansiado instante de se encontrar com seu espírito e receber dele o imenso bem representado pelo despertar para uma realidade que supera tudo o que foi intuído. Para quem permaneceu alheio ao conhecimento de sua natureza espiritual, fica difícil dar-se conta de que é aí onde achará a explicação de múltiplos fatos incompreendidos, tanto de sua vida como da vida dos semelhantes. Só agora, ao assumir a consciência dessa realidade, tal como a Logosofia a descobre ao entendimento humano,
pode o homem surgir ante si mesmo com plenitude de conhecimento e afirmar-se no domínio consciente de sua existência. Apreciará, com assombro, por que certos setores importantes da humanidade caem no erro ao serem guiados pelos tortuosos caminhos da fantasia, inventada para ligá-los a crenças obscurantistas. O homem não pode alienar a liberdade de seu espírito, sob pena de frustrar sua evolução e perder sua individualidade. Deve, então, preservar essa liberdade de todo risco; e conseguirá isso se efetuar sua união com o próprio espírito, mediante o processo de evolução consciente que a ciência logosófica prescreve e ensina a realizar. Nossa concepção do espírito começa por explicar qual é sua essência e sua realidade precisa e incontestável, como é seu influxo sobre o ser a quem ele anima, qual sua prerrogativa, sua possibilidade de manifestação e, finalmente, sua verdadeira missão aqui, neste grande campo experimental que é o mundo. Mas essa explicação requer um verdadeiro esforço didático, do qual nenhum detalhe concreto deve escapar, principalmente se se quer levar o entendimento até os domínios de uma prática ampla
e tenaz, com o objetivo de compreender sem equívocos os vastos alcances de um conhecimento de tal magnitude, como é o que abarca a concepção integral do espírito. Isso requer seu tempo, naturalmente. Fazemo-lo notar por causa da tendência a querer saber tudo de golpe, por uma simples leitura ou estudo ligeiro da verdade, enunciada e fundamentada em fatos categóricos. O conhecimento do próprio espírito exige antes de mais nada seriedade, meditações serenas, análises continuadas e cuidadosas de suas fugazes intervenções, e atenção constante para surpreendêlo quando usa de nossas faculdades. Exemplos concretos dessas fugazes intervenções, nós os temos toda vez que acodem à nossa mente pensamentos estimáveis, cujo concurso não esperávamos, ou quando brotam do ato de pensar idéias luminosas que assombram o próprio juízo. Nesta ordem de estudos não deve existir, pois, pressa nem descuidos, invariavelmente prejudiciais à boa marcha das investigações, que haverão de culminar na certa e ansiada comprovação acerca da autêntica realidade do espírito como potência inteligente e dinâmica da existência humana.
Para as pessoas em geral – bem o sabemos –, é difícil implantar um conceito em lugar de outro de longo enraizamento na mente e pouco menos que imodificável. Assim, por exemplo, para uns o espírito é a alma, ou o intelecto, ou o centro anímico do pensamento. Para outros é o ser incorpóreo, a razão, a sensibilidade, e até a personalidade. Há os que acreditam ainda que o espírito se manifesta nos estados emocionais, sentimentais, ou de alto vôo intelectual ou artístico, como prova de que o homem, ao exaltar momentaneamente suas elevadas preferências, concede ao espírito a prerrogativa de deleitar-se com tais preferências. Lamentável erro, como se haverá de ver mais adiante, ao tratarmos a fundo algumas circunstâncias próprias das modalidades que caracterizam o espírito. Mas devemos ressaltar neste ponto que, não obstante a dificuldade apontada, temos podido apreciar com que presteza esta é transposta por aqueles que, usando de sua razão e não da alheia, percebem a diferença substancial que existe entre o confuso conceito corrente e a concepção logosófica, clara e precisa. Se insistimos neste particular é porque sabemos da distância que separa a mente do verdadeiro con
ceito que a palavra “espírito” encerra. Ninguém o precisou, porque ninguém penetrou nos segredos de sua não manifestada – embora não menos maravilhosa – realidade. Dissemos “não manifestada” porque é uma verdade inquestionável que o homem não percebe as evidências de sua realidade, por nunca haver experimentado as mudanças que nele se produzem quando o espírito se dispõe a integrar o equipamento psicofísico e participar ativamente na condução da vida. Em realidade, o espírito foi sempre ignorado, ou dele sempre se falou com prevenção, chegando-se em não poucos casos à sua sistemática negação – referimo-nos aqui à ciência –, como se o espírito fosse algo impossível de comprovar ou alheio à investigação desse ramo do saber humano. Tampouco fazemos referência aos milhões de almas que ainda não transpuseram os mais elementares níveis de cultura, por não terem sequer uma remota idéia do que é e deve representar o espírito para cada indivíduo. Se bem estejamos dando importantes elementos de juízo para que cada um forme para si um cabal conceito sobre seu espírito, tal como deve ser ele conhecido e sentido em sua manifesta realidade,
devemos advertir que isso nunca acontecerá com a simples leitura do que expressamos, mas sim pela aplicação racional e consciente destes conhecimentos ao processo interno que a Logosofia ensina a realizar, processo mediante o qual se chega à verificação de mudanças concretas e reais na apreciação definitiva desta verdade. Queremos ressaltar com isto que ingenuamente se engana quem pretende satisfazer sua inquietude com o mero conhecimento teórico de um tema que deve assumir para a vida uma transcendental importância.

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